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Ângelo Correia: “Costa está a transformar o Chega num mártir”

Ministro por pouco tempo, deputado quase duas décadas, militante de sempre do PSD. Uns dizem dele que é um estratega, outros, numa versão menos abonatória, que é um Maquiavel.

Aos 76 anos, pouco se importará com o que pensam dele. Mas importa saber o que pensa ele p do estado da direita, da onda que varreu o PSD, do que falhou na estratégia de Rui rio, de quem foi apoiante, e o que será o futuro do partido. E da(s) direita(s).

Ângelo Correia, engenheiro de formação, gestor de profissão, doutorado em estratégia e político por vocação é o convidado desta semana do programa EM ALTA VOZ, uma entrevista da TSF e do Diário de Notícias. O antigo dirigente do PSD aponta o que falhou no partido e que caminhos devem ser seguidos nos próximos quatro anos e acusa António Costa de estar a transformar o Chega! num mártir, ao isolar o partido de André Ventura.

O que é que falhou na estratégia de Rui Rio?
Colocar o epicentro da questão em Rui Rio é importante, mas é redutor, porque Rui Rio também é uma consequência da história. E Rio sofre de alguns problemas e males que o PSD, há muito tempo, vem manifestando e que são graves. O que é que determina hoje no PSD os males que tem e que exibe? Durante muito tempo, talvez não tenhamos percebido que o PSD não é um partido eminentemente ideológico, nunca foi, é um partido sociológico. Por isso, tem uma flexibilidade e capacidade de se plasmar, diferente dos outros, mas com isto precisa de ter mais presente quais são as âncoras que o ligam à vida, à sociedade, à história. O PSD há muito tempo que percebeu que sociologicamente estava estribado em setores sociais dos quais se deslaçou progressivamente. O PSD, no passado, conduziu lutas académicas que o levaram à direção de imensas associações académicas, hoje em dia, nenhuma. O PSD teve ligações profundíssimas aos setores modernizadores e dinâmicos da sociedade. Perdemos tudo, o contacto com a natureza, com a história e com a vida.

Foi só o PSD que perdeu ou todos os partidos, depois daquela euforia pós-PREC, se tornaram mais profissionais e mais fechados?
Todos. Os partidos políticos, talvez com exceção do PCP, mas aí com um problema diferente, que é um problema da gerontologia, vai-se esfumando no tempo. O que acontece no PSD é que houve um afastamento das suas áreas essenciais, das quais a mais sensível e redutora foi a partir de 2015, com a terceira idade. E em vez de olhar para quem representa, falar e dialogar, o PSD começou a falar consigo próprio, parecendo um muro balcanizado de tribos que se digladiavam sem objetivo, a não ser a conquista do poder. E não se digladiaram sequer por pensarem diferente, digladiaram-se apenas pela conquista de poder. Toda esta metamorfose que o PSD sofreu, hoje também se manteve com Rio e se ampliou até em alguns casos.

Porque é que Rio esteve quatro anos à frente do partido, convenceu os 30% de eleitorado do PSD, mas não foi capaz de ir além disso? O que é que não correu bem nestes quatro anos?
Qualquer liderança e qualquer partido tem de ter dois dons essenciais: um dom encantatório e um dom pedagógico. Para quê? Para que seja seguido, para que, se projetar uma ideia que corresponde às ideias das pessoas que votam nele, nessa altura há um caminho mais fácil a percorrer. O PSD, como dizia há pouco, começou a olhar demasiado para si e pouco para quem representa, e isso tudo significou uma ausência de solidez. A solidez adquire-se quando as raízes de um partido estão bem mergulhadas na sociedade que representa. Quando as raízes começam a não ser alimentadas, o partido está sozinho, está a falar consigo próprio e isso é péssimo.

Terá sido um erro não ir a eleições com o CDS para reunir mais votos?
A história recente do CDS mostra à saciedade os defeitos que há pouco encontrei no próprio PSD, a um ponto de caminharem para a própria autodestruição. Quando se pressentia isso, que mão se pode dar a alguém que está à beira do precipício? É muito difícil, uma mão pode não chegar.

Rio terá feito bem, então, não seguir em coligação para as legislativas?
É uma pergunta que não me preocupa muito e é uma resposta que também não sei dar.

Depois de contados os votos, sabemos que o PS não teria maioria absoluta por causa do método de Hondt. E insistindo na pergunta, não terá sido um erro do PSD?
Não consigo encontrar resposta. Por mim, talvez não teria feito coligação. Não é isso que nos dava força, ou seja, há duas formas de encarar estas realidades: umas são realidades aritméticas, outras são realidades políticas. E nem sempre a aritmética da soma de votos corresponde a uma maioria política que o sustenta e que o expressa.

Ainda assim, a direita teve mais votos e mandatos do que há quatro anos, ou seja, há um eleitorado de não esquerda que está a crescer. Apesar da maioria absoluta, o PSD lidou mal ou foi negligente em relação ao Chega e à Iniciativa Liberal?
Olhar para o Chega não é olhar para a Iniciativa Liberal, olhar para a Iniciativa Liberal não é olhar para o CDS, olhar para o CDS não é olhar para outros pequenos partidos de direita que se formaram e, muito menos, olhar para nós. Há distinções que é preciso fazer para perceber a capacidade de coligação, de adesão e de criação de valores permanentes e partilhados entre todos. E não vejo que fosse possível fazê-los claramente e, muito menos agora, numa dinâmica de emergência de duas novas forças partidárias que vêm com um sentido desejado de afirmação, de força, e de conquistarem um espaço que, ou se extinguiu – o do CDS -, ou do PSD que está quieto. Portanto, não é a altura ideal para discutir com eles, mas é a altura ideal para se perceber como se relacionar com eles. Isto não quer dizer que aquilo que alguns pretendem apontar como federar a direita, como objetivo principal do PSD, seja um objetivo negativo. Digo é que agora é impossível sequer pensar ou considerar isso. O futuro nos dirá, tal e qual nos dirá o que é a Iniciativa Liberal e o que é o Chega. A Iniciativa Liberal tem um espaço de afirmação próximo do nosso, a celebração da liberdade, mas tem dois que os afastam radicalmente de nós: eles economicamente são neoliberais, isso para nós seria o regresso a um passado que queremos esquecer, por outro lado, significa para a Iniciativa Liberal a ausência de uma visão que respeita a solidariedade pública. Esses dois elementos distingue-os muito de nós, mas se olharmos para o comportamento da Iniciativa Liberal nos últimos dias, o que é que significa a postura de eles quererem sentar-se à direita do PS e à esquerda do PSD, o que é que isso quer dizer? É um símbolo político, é uma desejabilidade? Isto torna-nos tudo equívoco na relação com a Iniciativa Liberal e dela consigo própria.

E quanto ao Chega?
Do Chega é muito simples, não queria falar do Chega porque acho que é o falar demasiado do Chega que o faz ter a força que tem. E penso sempre, quando olho para António Costa, para o PS e para a extrema-esquerda, em François Mitterrand na década de 1980 em França, quando promoveu o lançamento da Frente Nacional. Havia deserdados da vida que não tinham uma aglomeração natural e o senhor Le Pen tentou criá-la e ele próprio se tornou um mártir. A figura que na política lança candidatos e líderes passa, em geral, pela construção dos mártires. António Costa, o que está a fazer hoje, tragicamente para Portugal, é a criação de um mártir que se chama Chega. Pior, está a autoexcluí-lo da vida institucional portuguesa, o que significa aumentar a imagem daquele que é desprotegido, do que é excluído, do que é posto num gueto. O grande Partido Socialista, o partido da integração e da inclusão social, é aquele que mais faz o contrário. A alguém que não pense corretamente, segundo o nosso padrão, para integrar socialmente, damos-lhe a mão para lhe explicar, mas não o colocamos como marginal. A marginalidade política em que Costa quer pôr o Chega só contribui para aumentar a sua imagem de mártir e para o seu crescimento futuro. O grande apoio do Chega é o PS, e Costa é o seu mestre-de-cerimónias, isso é que é a verdade política. Por isso, e voltando ao PSD, nós tivemos algumas oscilações em relação ao Chega, partindo da ideia básica de que o governo dos Açores precisava do voto do Chega, mas não de um acordo de cumprimento de objetivos do Chega. Hoje em dia, a única coisa que temos a fazer em relação ao Chega é respeitar os 12 deputados, respeitar os 400 e tal mil votantes que teve. E dizer duas coisas: devemos cumprir todos os deveres constitucionais para com o Chega e devemos tentar perceber o que é que ele é no futuro. Porque há aqui um sinal contraditório no programa do Chega e na sua visão da vida, porque se é ultraliberal na economia, é de um autoritarismo e de um radicalismo justicialista nas forças armadas, na justiça, digamos, naquilo que respeita à relação do Estado com a sociedade. E aí perguntamo-nos como é possível num partido coexistirem dois elementos tão contraditórios. Daí já o disse há um ano e repito agora. Temos de assistir e perceber o que é que vão ser a Iniciativa Liberal e o Chega. E, consoante isso, assim dialogaremos e articularemos com eles, mas presentemente há apenas uma realidade, a mais importante que conta para o PSD, que é o que é que nós somos, o que queremos fazer e como nos vamos comportar.

Concorda com a leitura de vários analistas de que o PSD ficou sozinho no combate ao Chega? Teria de servir de tampão e não conseguiu?
É evidente que o Chega estava a tentar conquistar um espaço que tinha pessoas nossas. Porque o Chega não é apenas um espaço político onde o desencanto, a marginalidade política, a agrura da existência, são expressões que o explicam e manifestam. É mais do que isso, é um desejo de promoção social e, nesse aspeto, dar apoio ao Chega significaria estar a dar apoio a um conjunto de ideias que, continuo a dizer, são contraditórias e vão ser decantáveis no tempo. Portanto, há um tempo de relação e o tempo de relação do PSD nessa altura não podia ser outro. Agora, o PSD foi vítima da campanha que António Costa e o PS, sobretudo, lançaram contra nós. O PS, pela oposição, pelo negativismo, pela guetização que impõe ao Chega, coloca-os numa plataforma onde não podem dialogar com ninguém, o que é uma negação da democracia. Simultaneamente, acusa o PSD de não poder ter relação com essa entidade e, quando a tem minimamente, é logo um ai-jesus, e quando isso não chega, António Costa cria a pior psicose que pode acontecer em política, que é uma chantagem pelo medo. “Se eles forem para o poder, articulam-se com o Chega”, a chantagem pelo medo só é possível numa sociedade débil e enfraquecida. António Costa devia ter vergonha, devia reconhecer ele próprio que utiliza argumentos numa sociedade dominada pelo medo, que ele próprio está a instilar, a criar e a manter. E isso é totalmente negativo para o Partido Socialista, não para o PSD, logo, a questão deve ser invertida. O grande tampão ao Chega é a sociedade portuguesa, são os portugueses, e quem instilar o crescimento do Chega está a comprometer os objetivos democráticos de funcionamento de uma sociedade.

Há dois anos, o Chega e a Iniciativa Liberal tinham um deputado cada. O PSD não percebeu a dinâmica?
Do espaço comum entre PSD e CDS, nos dois partidos e na sociedade envolvente, emergiram dois fenómenos novos. Um fenómeno com uma visão claramente liberal, que é uma resposta maximalista à estatização excessiva do Partido Socialista, e a estatização que o Partido Socialista conduziu com o Bloco de Esquerda e com o PCP levou a uma diminuição do estatuto da própria sociedade em si, e a Iniciativa Liberal é uma resposta a isso. Mas é uma resposta maximalista, não suficientemente equilibradora, numa perspetiva que depois gostaria de falar um pouco, mas sobretudo, maximalista e o PSD não se apercebeu disso ou não teve instrumentos ou capacidade suficiente de criar. Porque, obviamente, quando alguém teria uma perspetiva dessas, nunca poderia ser dentro do PSD, logo, se o PSD tivesse percebido o problema, estaria sempre confrontado entre duas questões: ou tentar tudo para estancar qualquer saída do PSD, mas para pessoas que pensam desse modo não teria sentido estancar, visto que a perspetiva não é do nosso partido ou, então, combater esse fenómeno novo. E combater um fenómeno novo dessa natureza é reproduzir parcialmente uma doutrina dessas e isso o PSD não pode fazer. O grande problema do PSD era outro, sendo o Partido Social-Democrata, não era um partido de direita, mas também era um partido para a direita. Essa é a questão essencial, nunca fomos um partido de direita doutrinariamente, nem sequer sociologicamente, mas parte da direita albergou-se lá e parte dessa direita sai por uma porta explícita e clara que não é a doutrina do PSD. O Partido Social-Democrata pode fazer várias coisas, mas não pode metamorfosear-se de uma maneira que passe a ser outro.

Foi um erro de Rio ter chamado o PSD para o centro?
Estamos a tocar outra questão essencial. Há quem diga que não há centro político. Mas o centro político tem duas características essenciais: primeiro, é o local e espaço onde o Estado e a sociedade têm equitativamente relevância e importância; segundo, o centro político é o espaço onde a liberdade e a solidariedade realizada pelo Estado, se encontram de modo a conseguir a divisão de políticas. Quando se perde esta ideia do equilíbrio entre o Estado e a sociedade, entre a liberdade e a solidariedade, estamos a caminhar para bipolarizações. Quem quer bipolarizar o país, ou seja, tornar o Estado forte contra uma sociedade fraca, como é hoje, ou, por hipótese, uma sociedade muito forte que capture o Estado, estamos a cometer dois erros fundamentais em democracia. O equilíbrio do sistema, o equilíbrio societal entre Estado e sociedade, onde se plasma a solidariedade humana e a liberdade, a solidariedade pública e o Estado, só existem num espaço político que é o centro. Anular o centro é destruir o equilíbrio da democracia.

Quando o PSD se puxa para o centro não só perde a direita, como fica demasiado parecido com o PS?
Estamos noutra questão que é qual é a vocação do PSD, primeiro, e em segundo qual é a relação que tem de ter com o PS. As respostas são óbvias para mim: o PSD deve ter sempre um posicionamento que lhe permita disputar o centro, mas do centro caminhar para a direita.

E Rui Rio não fez isso?
Não, não podia também fazer. Ou antes, talvez pudesse fazer, mas a ocupação pelo Chega, ou seja, o grande problema nunca está nos tempos em que os competidores já têm uma dimensão elevada nem nos tempos onde a competição já decorre de uma emergência e de uma nova dinâmica que é difícil ser sustida. Problemas dessa natureza travam-se na raiz, ou antes, travam-se antes da inclusão desses movimentos, e o PSD não teve atenção a isso. Mas o PSD, politicamente, tem poucas atenções, olha muito para o poder e para si, e não olha muito para a realidade sociopolítica que está à sua volta, em geral não faz isso. Segundo, em relação ao PS, vai ter problemas sérios no futuro, porque pensamos que o poder aglomera, mas não é o suficiente. O PS vai ter um problema que decorre pelo facto de a morte anunciada do CDS ir ser também projetada no Bloco de Esquerda daqui a algum tempo. Menos no PCP, porque o PCP durará o tempo que a gerontologia interna exibir e manifestar, isso é uma realidade histórica, não é a adequação doutrinária aos tempos de hoje que faz sobreviver o PCP. Mas enquanto isso acontece no PCP, no Bloco de Esquerda é mais rápido, como já aconteceu. E, por isso, há uma parte do PS que vai ser atraída por ocupar o seu espaço à esquerda, o espaço do que ele tem hoje e vai tentar fazer essa ocupação. Quanto mais o PS tiver essa preocupação pela debilidade do Bloco de Esquerda e do PCP, mais provavelmente o espaço do centro-esquerda se abre ao PSD. Mais, o que eu acho essencial na disputa entre o PS e o PSD, não é tanto uma disputa de espaços sociológicos, são problemas de natureza ideológica. Hoje em dia, com o PS há um problema de liberdade, há um problema de olhar o futuro e não o presente, há uma insubstantividade de algumas políticas que o próprio PS expressa e, por isso, acho que o PSD deve ter uma atenção particular a essas questões.

Depois de ter ganhado várias vezes as eleições internas, Rio afinal não teve o partido do seu lado. Porquê?
Provou-se que a questão não era depois das eleições, é um contínuo que já vem há demasiado tempo para hostilizar Rui Rio. Todos nós podemos discordar do líder, e discordei tantas vezes, e podemos tentar melhorar e corrigir a situação, e há maneiras de o fazer, assim como há maneiras de integrar as pessoas de um lado e de outro. Faltaram perspetivas políticas que dão o sentido de unidade ao PSD.

E isso era responsabilidade de Rio?
É de todos nós, mas também dele como é evidente. Todos nós temos de contribuir para isso, para um sentimento de algum debate para obter alguma coisa que seja um denominador comum. Ora bem, é essa luz. A máscara que se tapou um pouco antes das eleições rapidamente depois das eleições mostrou o contrário, ou seja, não era uma atitude séria, era uma máscara. Enquanto o PSD estiver atravessado por sentimentos e atitudes dessa natureza, não só perdemos eleitorado, como não captamos novas pessoas. O grande problema do PSD não é só a perda para a abstenção e para outros perdidos, o grande problema do PSD é não unir novas pessoas de qualidade, e isso mostra-se no exercício da política, o que é péssimo para todos nós.

O que espera do presidente Marcelo Rebelo de Sousa durante os próximos quatro anos com uma maioria absoluta?
Contrariamente ao que muitas pessoas têm dito, acho que Marcelo Rebelo de Sousa pode ter uns excelentes quatro anos. Na prática, quando o Presidente da República se dirige ao país, por exemplo, através da Assembleia da República, dos discursos que faz na Assembleia, de mensagens públicas ou mensagens sobre algumas leis que veta, tudo isso é a essência da comunicação do Presidente com o país. Mas a essência da comunicação entre o Presidente e o Governo é, sobretudo, nas reuniões de quinta-feira com o primeiro-ministro ou noutros contactos à volta. E o Presidente da República pode dizer tudo. Em quatro anos teve uma relação distensa com António Costa, distensa com o Partido Socialista, amiga até em alguns casos, cúmplice noutros, não vejo nenhuma razão para encontrar sinais de hostilidade política, a não ser que o Presidente da República quisesse mudar a natureza do comportamento presidencial, o que não fará seguramente. A não ser que o primeiro-ministro quisesse mudar a natureza da relação com o Presidente da República, e não o fará, daí, não antevejo momentos difíceis, pelo contrário. Os momentos de estabilidade não são só para o primeiro-ministro e para o seu governo, são também na sua relação com o Presidente da República.

Como é que o PSD se deve preparar para os próximos quatro anos?
Em primeiro lugar, o PSD tem de tomar conta de si próprio e isso implica rever três coisas essenciais. A primeira, é rever a sua comunicação ao país, ninguém consegue respirar politicamente esquecendo a comunicação pública, porque é a única maneira em que respiramos politicamente, em que a nossa mensagem chega e é audível para o país e o país nos percebe. O PSD não tratou desse problema. Para isso, tem de contribuir uma segunda tarefa: o PSD tem de ser encantatório, tem de ter atratividade, isto é, o PSD fez documentos magníficos do mais competente e sério que já vi, mas não passaram, ou seja, o país não soube deles, mas eles existem. Em política é preciso passar da ideia à realidade, passar do discurso teórico para uma apresentação prática, de modo que as pessoas ouçam e percebam o que é que se pretende. É preciso, por isso, profissionalismo e competência. A terceira que o PSD vai ter de fazer: perceber se quer viver muito tempo ou se quer dilacerar-se. Nunca nos podemos esquecer, somos representantes dos cidadãos. E enquanto o PSD não fizer isso e se embrulhar em lutas internas, o PSD tem condições mais que justificáveis para diminuir a sua expressão política. Ou seja, não é mudar a doutrina, não é mudar o posicionamento, é ser ele próprio, saber quais são as suas âncoras. Uma árvore mede-se pelos seus frutos, mas só há frutos se a árvore tiver raízes e se as raízes forem fortes e o PSD tem de perceber isso.

Já disse que não deve haver pressa na escolha do líder do PSD. Deve haver, antes, um momento de reflexão. Como se faz?
Há quem já tenha apontado que é preciso uma reunião de barões, dos antigos presidentes, para pensar o que é que se deve fazer. Discordo totalmente. O PSD tem de recusar sempre visões elitistas e aristocráticas, o PSD é um partido genuinamente democrático. Cada sede do partido, em cada área do partido, em cada sítio onde o partido esteja, as pessoas que discutam e se reúnam, e aqueles que são candidatos à liderança que mergulhem na sociedade do próprio partido para debater com as pessoas. Não discutam entre si, discutam com o próprio partido, com os próprios militantes. Acho que um ou dois meses de discussão interna valia a pena.

Um antigo companheiro seu de partido, José Miguel Júdice, disse nesta semana que um PSD sem estratégia arrisca a tornar-se um partido médio, dando ao PS mais anos de governação para lá de 2026. Concorda?
Naturalmente, mas é insuficiente o que ele disse. Uma das coisas que na prática o partido deve exibir é ter sempre presente e olhar para o futuro, ou seja, ter uma estratégia significa olhar para o futuro, mas não se poder elidir das questões do dia-a-dia. O PS concentra-se muito no presente, o PSD pretendeu concentrar-se muito no futuro, a verdadeira posição correta é que o futuro justifique o que no presente estamos já a fazer, essa é a atitude correta. Se conseguirmos fazer isso, daremos um passo, quando conseguirmos fazê-lo daremos um passo gigantesco para conseguir ser poder um dia. Só podemos ser poder quando o merecermos. Costumamos dizer que apreciamos muito a meritocracia, pois apliquemo-la a nós próprios, temos de ter mérito para conquistar as almas e os corações dos cidadãos.

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